“JOSÉ DO EGITO” – Um olhar sobre a estreia

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Aconteceu na semana passada a esperada estreia de José do Egito, novo título da série de enredos bíblicos que a Record vem produzindo desde 2010. A excelente qualidade técnica e o elenco afinado encabeçam os acertos do canal de Edir Macedo nesta superprodução, à altura de uma das mais belas, dramáticas e instigantes histórias da Bíblia Sagrada.

O primeiro episódio talvez tenha causado certo estranhamento ao focar no drama da jovem hebreia Diná (Marcela Barrozo), violentada pelo estrangeiro Siquém (Paulo Nigro), ao invés da juventude do protagonista. Mas o que poderia ter sido um equívoco mostrou-se uma excelente investida. Esta sequência foi o grande atrativo da estreia, comovente, bem-produzida e com direito à interpretação brilhante de Marcela Barrozo, que expressou bem todo o sofrimento e humilhação da personagem. Além disso, serviu para atestar a atualidade da trama bíblica.

O elenco está bastante afinado. Denise Del Vecchio (Lia), Celso Frateschi (Jacó), Carla Cabral (Bila), Babi Xavier (Elisa) e Caio Junqueira (Simeão) mostraram-se seguros em seus papéis e já despontam entre os grandes destaques de José do Egito. Chama a atenção, porém, o maniqueísmo adotado pela direção de Alexandre Avancini na retratação de alguns personagens históricos. Lia, Simeão e Levi (Felipe Cardoso), por exemplo, veem-se demarcadamente vilanizados – completamente desnecessário e inapropriado, visto que a própria narrativa judaico-cristã os humaniza.

Situação similar ocorre com o protagonista José – interpretado nesta primeira fase por Ricky Tavares. O roteiro pinta o rapaz com matizes mais idealizadas do que humanas, chegando a substituir trechos de sua trajetória na Bíblia por “novidades” com o fim de acentuar esse perfil. Ricky Tavares, por sua vez, se vê um pouco apático na pele do filho favorito de Jacó. Um ponto no mínimo estranho depois do excelente desempenho do ator como o dependente de drogas Wellington, na novela Vidas em Jogo (2011).

A “licença poética” da autoria-direção gera controvérsias também na alteração do contexto original para o roteiro da minissérie. Por exemplo, o momento em que José descobre a vingança que seus irmãos pretendem fazer contra o povo de Siquém e ameaça impedi-los. Nenhum relato bíblico estabelece qualquer interferência de José (aliás, nem ao menos o menciona) no episódio em Siquém. É algo a ser bem ponderado dentro da adaptação, pois envolve diretamente mais de uma doutrina religiosa, e de grande adesão entre o público brasileiro.

Pese os tropeços, José do Egito vem com uma proposta atrativa para o público que prestigiou as produções anteriores, como Sansão e Dalila (2011) e A História de Davi (2012), e mesmo os que ainda não aderiram ao gênero. Mais do que um enredo específico do cristianismo e do judaísmo, trata-se de uma saga de extremo valor como cultura geral, e que tampouco deixa a desejar em termos de apelo popular. Definitivamente, vale conferir.

(Felipe Brandão)

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