[EM CARTAZ] “O Grande Gatsby” – A beleza dos anacronismos propositais e de uma Era do Jazz sem Jazz

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F. Scott Fitzgerald é considerado um dos maiores escritores do século XX e da “geração perdida” e que tem em “O Grande Gatsby” (publicado em 1925) um de seus maiores sucessos. “A Geração Perdida” é um termo que foi, possivelmente, cunhado por Gertrude Stein e popularizado por Ernest Hemingway (ambos escritores consagrados da mesma época de Fitzgerald), e que se refere aos intelectuais e celebridades literárias e artísticas que viveram na década posterior à I Guerra Mundial e início da Grande Depressão. É uma geração de jovens que vivenciaram os horrores da Guerra e que voltando ao mundo de paz e efervescência de novos costumes, se vêem tentando afogar suas memórias e falta de aspirações para o futuro nas bebidas e nas noites animadas ao som do jazz nesta também conhecida como a Era do Jazz. São pessoas que, nas próprias palavras dos que vivenciaram e receberam esta alcunha (Hemingway, Fitzgerald e sua esposa Zelda, William Faulkner, Ezra Pound entre outros) vivem a profunda sensação de vazio da vida boêmia e da sucessão ininterrupta de festas buscando ocultar sob risadas os traumas adquiridos.

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É essencial que se tenha em mente essas informações antes de assistir à terceira adaptação para os cinemas desta obra (as duas anteriores são do ano de 1949 e 1974, com Alan Ladd e Betty Field e Robert Redford e Mia Farrow, respectivamente). Essencial porque pode salvar o momento de comunhão com o filme daquele espectador que, como eu, não teve (ainda) a oportunidade de ler o livro. Conhecido por vestir filmes de época em roupagens da contemporaneidade (como “Moulin Rouge” ou “Romeo and Juliet”), o diretor australiano Baz Luhrmann faz da história de Jay Gatsby uma verdadeira explosão de cores, música atual e ostentação purpurinada sem levar em consideração o plano de fundo da época e sem se aprofundar no cerne das relações pessoais e dilemas internos que fizeram desta obra de Fitzgerald um dos maiores clássicos da literatura de todos os tempos.

O que se tem é uma história de amor obsessivo por parte do misterioso e rico Jay Gatsby (cuja origem da fortuna é um mistério), por Daisy Buchanan, uma mulher casada e que no passado costumava ser apaixonada por ele. A história é narrada pelo primo desta, Nick Carraway, alcoólatra, com alguns distúrbios psicológicos e que escreve a história como forma de terapia do interior de uma clínica de repouso. Das memórias de Nick, renascem as festas grandiosas da casa de seu vizinho rico, Gatsby, personagens peculiares e o amor conturbado entre o personagem título e a prima.

O filme tem recebido críticas negativas desde antes de seu lançamento e que debatem o fato de este não conseguir reproduzir a profundidade do livro. De certa forma, é sempre esperado que adaptações cinematográficas sejam inferiores na qualidade dos argumentos e idéias expostas já que o espaço de tempo é curto e o público alvo é muito mais amplo.

Como dito anteriormente, o filme é uma explosão de cores e sons e purpurina o que acarreta na divisão deste em duas partes: a primeira que engloba a chegada de Nick Carraway à casa ao lado da de Gatsby e sua inserção no mundo glamouroso e festivo dos ricos, regado á álcool, sexo e jazz (no filme todo o jazz é transformado em músicas contemporâneas de artistas como Beyoncé, Bryan Ferry, André 3000 e Lana Del Rey) e a segunda, após o reencontro de Jay e Daisy em uma calmaria quase descolorida se comparada ao início da película.

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Os atores são as colunas que sustentam a produção, Leonardo DiCaprio, herói carimbado de filmes trágicos (“Romeo and Juliet”, “Titanic”); Tobey Maguire (“Spider Man”), parecendo perfeito para o papel de recém-chegado à grande cidade, deslumbrado com a beleza efervescente da vida noturna e trazendo um quê de inocência interiorana; Carey Mulligan (“Shame”, “Pride and Prejudice”, “Education”), uma Daisy Buchanan que contrasta perfeitamente a   asfixiante vida caseira e a efusividade das festas; e Joel Edgerton (“Rei Arthur”, “A Hora Mais Escura”)  que consegue entrelaçar os papéis de marido canastrão traidor e esposo delicado.

No geral, é um filme agradável, que chega mesmo a emocionar. É uma produção que irá agradar a dois tipos de espectadores e desgostar a um terceiro. Ao tipo 1, àquele que não leu o livro de Fitzgerald mas que vai ao cinema sabendo contextualizar a época, suas depressões e dilemas, poderá sair satisfeito após ser colocado frente ao espetáculo visualmente belo, colorido, barulhento e com ótimas atuações. Ao tipo 2, àquele que não leu e busca diversão apenas sem se importar em fazer pontes entre a história e a História, também agradará (talvez ainda mais que ao tipo 1) já que existem elementos que a asseguram como músicas contemporâneas criando a sensação de reconhecimento, a trama amorosa e bem executada e o visual. E finalmente, o tipo 3, que é aquele que sairá do cinema profundamente decepcionado por mais uma adaptação da vida de Jay Gatsby ter dado errado, este é o espectador que leu o livro. Este verá que é um filme superficial e que mostra uma sucessão de cenas belamente criadas, onde a história de amor se torna o foco principal em detrimento das angustias, ausência de moral e decadência de personagens que espelham toda uma época herdeira de traumas de guerra e que se preparam para adentrar em outra.

[Por Cinthia Torres]

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