Crítica: Peça de Teatro – Apartamento 171

O Portal Overtube conferiu de perto neste mês de Julho a peça de teatro Apartamento 171, escrita por Antônio Rocha Filho (o faz-tudo Amadeu de Dona Xepa) e dirigida por Duda Ribeiro (o atrapalhado Adam de Salve Jorge). A obra está em cartaz todas as sextas, sábados e domingos no Teatro dos Grandes Atores, localizado no Barra Square Shopping Center, no bairro da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. No elenco estão o próprio Antônio Rocha Filho, Rômulo Estrela (o fotógrafo André de Balabobaco), Amanda Richter (a ousada Iracema de Gabriela), Fernanda Pontes (a sonhadora Vanessa de Flor do Caribe) e Mateus Rocha (cuja última participação na televisão foi em Balacobaco).

Apartamento 171 surpreende com a qualidade do texto final e do argumento, com a trilha sonora (composta por duas músicas de Bobby McFerrin e Bezerra da Silva), com as excelentes e seguras interpretações dos artistas, mas sobretudo por não subestimar a inteligência da plateia. Com ares de comédia muito bem elaborada, sem nenhuma fala ou marcação que poderia ser facilmente dispensada ou distrair a plateia, a peça de teatro é uma ótima opção de entretenimento para quem está no Rio de Janeiro e deveria sair pelo Brasil afora. As sacadas e as intenções dos personagens são superiores a qualquer outra obra de comédia, como os stand-ups, que é pura enrolação, e nem merece comparação. A peça de teatro já havia sido apresentada em 2012 com a direção de Eri Johnson e com outras atrizes, Renata Ricci e Camila Rodrigues. Contudo, o texto caiu como uma luva nas mãos de Amanda Richter e Fernanda Pontes, como se as personagens tivessem sido especialmente elaboradas para elas. Com certeza, os méritos também vão para a percepção de Duda Ribeiro.

A presença dos atores no palco também é muito bem planejada, pois o autor conseguiu dividir de igual para igual as falas e as histórias dos personagens, situação que está cada vez mais complicada nas telenovelas, por exemplo, onde os personagens apenas existem, sem qualquer histórico de vida, e aparecem de vez em quando, com outros aparecendo excessivamente. A cereja no bolo vai para o final da peça, momento em que a plateia é convidada para tirar fotos com os atores, sendo estas imagens publicadas nas redes sociais dos atores e da obra posteriormente. Um ponto que demonstra a humildade dos artistas e uma maior interatividade do público, antes e depois da peça.

Apartamento 171 também demonstra que não é necessário uma grande produção para se realizar um bom trabalho. O cenário é minimalista, contando com um tapete, mesas com porta retratos, um bar, um sofá, um artigo decorativo e a polêmica mala com muitos dólares dentro, que segundo o elenco brinca no final da peça, algum dia vai ser sorteada, só que não. Junto a iluminação com cores primárias e alegres, o clima dentro do Teatro dos Grandes Atores é sempre de energias muito positivas e risadas garantidas. Não podemos deixar de citar a origem do nome da peça, a história, os personagens e comentar as atuações dos artistas, tudo bem delineado.

A obra gira em torno da chegada de um casal, a advogada Jaciara (Amanda Richter) e o estressado trabalhador do mercado financeiro Álvaro (Rômulo Estrela), a um apartamento de número 171, que foi alugado por eles através de uma imobiliária, então eles aparecem em cena com mala e cuia. Há muita química e sintonia entre os dois atores, que conseguem arrancar gargalhadas do público até nos momentos em que não possuem nenhuma fala. Depois, chega outro casal ao apartamento com novas chaves e malas: o ator desempregado Chico (Antônio Rocha Filho) e a estilista Adriana (Fernanda Pontes). Os quatro descobrem, então, que caíram em um golpe muito bem arquitetado: um falso corretor de imóveis alugou o mesmo apartamento para os quatro, usando uma empresa de fachada e dois contratos muito bem falsificados.

O grande problema dentro do contexto é que os quatro se recusam a deixar o local e não cedem o aluguel do apartamento uns aos outros. Daí o motivo do número do apartamento ser justamente 171: se trata de um trocadilho com a expressão 171, que designa estelionato, lorota ou engano. O talento de Antônio Rocha Filho para a comédia, com marcações, intenções e falas muito bem executadas dentro de um personagem com manias e trejeitos tipicamente brasileiros, lhe rendeu o convite do autor de Dona Xepa para atuar na trama da Rede Record. Já Fernanda Pontes, interpretando uma personagem que a primeira vista aparenta ser uma hippie desligada da gravidade do assunto, termina a peça de teatro brilhando com a sua espontaneidade. A personagem dela, ao final da obra, demonstra para quem a julgou desligada, que de boba não tem nada.

Para colocar pimenta no enredo, o deputado Galhardo (Mateus Rocha) chega no palco no meio do texto e deixa todo mundo se questionar, inclusive os personagens: todo mundo tem a chave desse Apartamento 171? Conhecido por seus escândalos no congresso nacional, o personagem é o verdadeiro dono do apartamento, gerando ainda mais confusão. Ele volta para buscar a polêmica mala de dinheiro, já citada antes, para fugir antes que a situação fique preta para ele na política. O problema é que Jaciara já havia encontrado a mala no banheiro e os outros três personagens ficam apavorados com o desaparecimento misterioso desta mala. Ninguém se lembra de nada, pois estavam bêbados na noite anterior, quando encontraram a tal mala e ao mesmo tempo abriram bebidas caras adquiridas pelo deputado para comemorar a decisão de permanecerem juntos no apartamento. A chegada de Mateus Rocha no meio do texto não o impediu de roubar a cena com a sua interpretação segura dentro de um personagem canastrão e por muitas vezes sarcástico, cujas falas eram dúbias o tempo todo.

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