“SANGUE BOM” pecou pelo humor em detrimento do drama

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Não é novidade para ninguém que a TV brasileira anda numa maré de novelas sem sal. Sangue Bom, que terminou no último sábado (dia 2), em nada fugiu a essa regra. A trama de Maria Adelaide Amaral (Anjo Mau, Ti Ti Ti) em co-autoria com o estreante Vincent Villari foi simplesmente um “mais do mesmo” cozido a banho-maria, e sofreu do início ao fim com a baixa audiência.

A falta de carga dramática foi o maior defeito de Sangue Bom. A trama principal, centrada nos conflitos entre seis jovens amigos de infância, era água-com-açúcar demais, incapaz de sustentar o arco dramático de uma novela moderna. Foi visível a intenção dos autores em repetir o sucesso de Ti Ti Ti (2010), sobretudo no humor escrachado predominante nos núcleos secundários – mas aparentemente este não era tão efetivo sem uma boa dose de drama que lhe servisse de contrapeso, conforme existia em sua precursora.

Se a história central não empolgava, os núcleos paralelos tampouco o faziam – a enfadonha família Rabelo, encabeçada por Perácio (Felipe Camargo), Rosemere (Malu Mader) e Letícia Isnard (Brenda), que o diga. O elenco “inchado”, aliás, foi outra característica incômoda. Além de ter atrapalhado muito o ritmo da história, reduziu diversos atores competentes à figuração de luxo, a exemplo de Thaila Ayala (Camilinha), Chris Nicolotti (Odila), Louise Cardoso (Salma) e Tato Gabus (Franklin).

Portanto, se existiu algum mérito em Sangue Bom, este fica por conta da sátira inteligente ao universo das celebridades. Amaral e Villari viam-se especialmente inspirados na retratação ácida e irônica do meio midiático, brindando o espectador com sequências e diálogos divertidíssimos, com um quê de reflexão. Pena que tal artifício não tenha sido aproveitado em um contexto melhor, uma vez que jamais poderia sustentar sozinho um enredo de telenovela, onde o folhetim é que deve imperar.

A pobreza narrativa tampouco impediu que vários atores, jovens e veteranos, se sobressaíssem nas telas. Marco Pigossi chamou a atenção como Bento, conseguindo compor um herói politicamente correto sem cair na chatice – coisa rara hoje em dia. Os ótimos Isabelle Drummond e Humberto Carrão roubaram definitivamente a cena como Giane e Fabinho, que, próximo à reta final da história, vieram a formar um casal inusitado e muito cativante.

Completam a lista de destaques Giulia Gam (a estrela decadente Bárbara Ellen foi seu melhor papel na TV em anos), Ingrid Guimarães (apesar de sua Tina ter passado toda a novela pulando de núcleo em núcleo), Fernanda Vasconcellos (Malu), Letícia Sabatella (Verônica/Palmira), Armando Babaioff (Érico), Bruno Garcia (Natan) e Joaquim Lopes (Lucindo).

Sangue Bom prometia muito e cumpriu pouco. Um ótimo elenco e um pano-de-fundo promissor foram desperdiçados em uma história vazia e desinteressante, que pôde ser considerada, nas análises mais otimistas, um bom tapa-buraco para a faixa das 19h da Globo. Espera-se que a recém-estreada Além do Horizonte possa apagar essa má impressão e trazer a audiência de volta à telinha.

(Felipe Brandão)

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