Crítica: Além do Horizonte, uma novela cinematográfica

Posted on 10/11/2013 à 22:07 PM por

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Além do Horizonte - Portal Overtube

Na última segunda-feira, dia 4 de Novembro, entrou no ar a nova novela das sete da Rede Globo: Além do Horizonte. O folhetim anterior, Sangue Bom, era repleto de expectativas iniciais em relação ao seu enredo e ao seu elenco, mas apesar de ter sido uma ótima forma de entretenimento, decepcionou pela figuração de luxo de vários bons atores e pelo fato do humor ter sido priorizado e o melodrama ter ficado em segundo plano. Por causa disso, a percepção crítica do público e de quem vos escreve se tornou ainda mais aguçada quando soube qual seria a novela que a substituiria, neste caso, Além do Horizonte. Foi mais ou menos o que aconteceu quando acabou Avenida Brasil e entrou Salve Jorge, cheia de erros graves de continuidade, em seu lugar. Ocorre que a legião noveleira não queria ser feita de trouxa novamente.

Quando começaram a anunciar o elenco provisório de Além do Horizonte, os nomes não agradavam muito e não geravam qualquer tipo de expectativa. É o caso de Fiuk, Giovanna Lancellotti, Paloma Bernardi e Thiago Martins. O diretor de núcleo do folhetim, Ricardo Waddington foi bastante inteligente em submeter todos os atores desejados a uma bateria de testes, tal como fez com os medalhões de Joia Rara. A equipe de produção da novela das sete chegou a um acordo e os diretores elevaram Juliana Paiva, Thiago Rodrigues, Christiana Ubach e Vinicius Tardio ao posto de protagonistas da novela. Quando foram ao ar as chamadas de Além do Horizonte, já dava para perceber o resultado destas escalações, mas pouco sobre o enredo.

Pudemos perceber primeiramente ao assistirmos o primeiro capítulo da trama que o sucesso de Juliana Paiva como a Fatinha de Malhação não foi o suficiente para a atriz abocanhar um contrato de exclusividade com a Rede Globo. Ela fez por merecer o seu trabalho e provou que seria capaz de interpretar uma personagem completamente diferente da anterior, afinal Lili é uma mocinha sofrida pelo desaparecimento do pai, mas extremamente mimada e nada delicada. Thiago Rodrigues, na pele do rústico e cético William, também foi uma boa escolha, mas é difícil engolir o rapaz chamando Sandra (Karen Coelho) de “titia”. O ator recuperou as atenções ao interpretar Zenon em Guerra dos Sexos, pois estava praticamente na geladeira após o fracasso de Tempos Modernos.

Christiana Ubach reaparece em cena como a frustrada Paulinha. Ela estava fora do ar desde Malhação ID, embora tenha recebido o seu salário religiosamente todos os meses desde 2010. A sua personagem é idêntica à Cristiana da novelinha teen, só que a atriz agora demonstra maturidade na pele de uma jovem que larga toda a sua vida para ir atrás da felicidade plena. Os créditos se devem ao cinema brasileiro, por onde ela transitou durante todo este tempo fora do ar. O erro não foi a sua escalação, mas sim o fato de designá-la a um papel idêntico ao anterior. Já Vinicius Tardio, revelação da emissora para esta novela, veio do cinema. Como o DJ Rafa, o ator está decepcionando e se mostrando extremamente inexpressivo. Pode ser que o personagem nos surpreenda mais adiante, já que ele também vai buscar a felicidade plena, mas a responsabilidade de carregar um protagonista é muito grande.

Também falamos sobre as chamadas de Além do Horizonte que pouco dizia sobre o enredo da novela. Foi a partir deste momento que o público e quem vos escreve começou a se preocupar com o futuro da trama. Depois que saiu o trailer da novela, a preocupação se agravou ainda mais. A impressão causada era que os autores Carlos Gregório e Marcos Bernstein muito prometiam, mas pareciam que não iriam conseguir cumprir, o que seria praticamente uma contradição, pois o fato dos autores serem cineastas já nos deixava curiosos. Eles foram responsáveis por filmes como Zuzu Angel, Central do Brasil e Se Eu Fosse Você. O que aconteceu de verdade mesmo é que as gravações da novela atrasaram durante meses por causa das cenas externas na Amazônia e por causa da dificuldade em escalar todo o elenco, pois outros nomes acabaram migrando para novas produções da Rede Globo. Um fator que deixaram as chamadas e o trailer misteriosos demais foi o fato de que os autores não queriam revelar a cereja do bolo da trama, o mistério que envolve o Grupo, uma seita que leva as pessoas até a felicidade plena, mas a falta de compreensão do público com isso poderia ocasionar problemas para o folhetim futuramente. E já causou.

Quando a primeira cena da novela foi ao ar na televisão, todas as expectativas caíram por terra. A escolha do diretor-geral Gustavo Fernandez foi a verdadeira cereja do bolo de Além do Horizonte. Dotado de referências do cinema, o diretor conseguiu construir uma novela cinematográfica e extremamente dinâmica, que em nada se arrasta no clichê como ocorre com a atual novela das nove, Amor à Vida. A primeira cena da trama mostra Lili berrando ao avistar um sapo. O que poderia ser uma cena clichê do núcleo rico da novela se tornou um filme com direção de fotografia impecável na novela das sete. Desde o momento em que uma bola de golf é tacada, passando pela reação dos convidados até a aparição do monstruoso sapo, tudo foi de um bom gosto inédito na Rede Globo. Aliás, o horripilante sapo ganhou dois takes especialmente para ele. A inovação de Além do Horizonte foi um acerto, mas o erro surge pelo fato do elenco ser fraco e repleto de iniciantes.

A trama possui um roteiro impecável e com diálogos rápidos, como na linguagem do cinema mesmo. Tanta inovação fez os autores cumprirem o que prometiam. O problema é que todas as vezes que a Rede Globo tenta inovar em sua dramaturgia, o público de massa rejeita a proposta, tal como ocorreu em Malhação Conectados. Por causa disso, poderemos ver no ibope o reflexo desta análise. Na verdade, já vimos que a audiência iniciou inferior à Sangue Bom. Neste momento, podemos parar para pensar se o telespectador não faz as emissoras de trouxas também.

Vai cena e vem cena, também fomos apresentados ao município fictício de Tapiré, situado em um lugar bem distante das conhecidas cidades do Brasil, mais especificamente na Floresta Amazônica. Ao invés do público se fixar na exuberante e realista cidade cenográfica flutuante que foi erguida dentro do Projac, tudo o que conseguem fazer é falar sobre referências de outros seriados como Lost e filmes como A Vila. Neste núcleo foi um grande acerto a escalação de JP Rufino como o barqueiro Nilson, uma criança que possui um futuro brilhante na emissora. Basta ver as sequências em que Nilson é obrigado a trabalhar de madrugada e acha que viu a lendária Besta, um monstro que persegue as pessoas, quando na verdade a lenda foi plantada para facilitar o trabalho do desmatamento ilegal na floresta.

Outras boas escalações são as de Yanna Lavigne, Marcello Novaes, Sheron Menezzes e Daniel Ribeiro. Quem decepcionou muito foi Mariana Rios, na pele da professora Celina. Ela não se preparou, em nenhum momento da sua carreira, para se desvincular do seu sotaque mineiro, motivo pelo qual a direção da novela teve anunciar que a personagem havia nascido em Minas Gerais para justificar.

Voltando ao núcleo do Rio de Janeiro, Rodrigo Simas está se destacando como o medroso Marlon. Foi acertada a escolha de Ricardo Waddington ao trocar o personagem do ator, que iria viver William, o irmão de Marlon. Houve também boas revelações como Lucas Salles e Jacqueline Sato, mas ainda não vimos os personagens dos atores veteranos  que são as grandes promessas, como é o caso de Antônio Calloni, Carolina Ferraz Alexandre Nero e Cláudia Jimenez. Por falar em veteranos, Alexandre Borges, Flávia Alessandra, Cássio Gabus Mendes e Caco Ciocler estão mandando bem em qualquer personagem que fazem. A decepção mesmo começou a aparecer com as escalações de Maria Luísa Mendonça e Igor Angelkorte como Inês e Marcelo, que interpretam mãe e filho. Os personagens são delicados demais tanto em suas falas quanto expressões corporais ou faciais. Não que os atores sejam ruins, pelo contrário, os personagens foram construídos desta maneira e desagradam bastante.

Para finalizar, devemos destacar a atuação de quatro atores que prometem em Além do Horizonte e também em futuras novelas da Rede Globo. A primeira é a intérprete de Júlia, irmã de Rafa, que se trata de Marcella Valente. A atriz mandou muito bem em Eterna Magia e em Passione, mas virou praticamente uma figurante em Avenida Brasil na pele da secretária Renata que apareceu poucas vezes na trama e depois nunca mais retornou. Também temos Day Mesquita, muito segura na interpretação da inteligente Fernanda. A atriz foi revelada na Band e que depois migrou para o SBT.

Laila Zaid, que depois de uma passagem pela Rede Record, fez As Brasileiras e Amor Eterno Amor na Rede Globo, interpreta Priscila, a prima cômica de Lili, que remete à sua primeira personagem, a Bel de Malhação. Para finalizar, outro acerto da nova novela das sete, Além do Horizonte, foi a contratação de Rômulo Estrela, que interpreta o carreirista Álvaro. Nas poucas cenas em que apareceu, o ator demonstra maturidade e segurança no seu personagem, desvinculando a sua imagem daquela lista de globais com muita beleza ou músculos e pouco talento.

Fica um apelo especial do público e de quem vos escreve para os autores: não façam Marcella Valente, Day Mesquita, Laila Zaid e Rômulo Estrela entrarem para o seleto time da figuração de luxo. Seria um extremo desperdício na dramaturgia da Rede Globo. É só pararmos para ver o que aconteceu com os medalhões e iniciantes de Sangue Bom, Salve Jorge e Avenida Brasil.

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