LUZ, CÂMERA, 50 ANOS – “Ó Paí Ó” retratou as classes populares na capital baiana

A Bahia marcou presença na noite de ontem (quarta-feira, 14) da Globo com a exibição de Ó Paí Ó, no Festival Luz, Câmera, 50 Anos. A revisitação da série de Guel Arraes e Jorge Furtado, que contou com duas temporadas entre 2008 e 2009, foi feliz ao compilar os seus 10 episódios totais de uma forma ágil e direta, sem ferir a impressão de continuidade necessária ao entendimento de um telefilme. Mais uma prova da competência da equipe responsável pela reedição dos títulos “homenageados” no cinquentenário da Globo.

O cotidiano dos moradores de um cortiço no bairro do Pelourinho, em Salvador, serviu de pano-de-fundo para uma retratação bem-humorada do estilo de vida das pessoas simples que vivem em comunidades na capital baiana. Aparentemente despretensioso, o humor não deixou de lado uma ácida e pertinente crítica social aos problemas comuns desses cidadãos, como nas cenas em que Maria (Valdineia Soriano) passa por diversos hospitais públicos em busca de uma vaga para dar à luz – ao fim, a personagem acaba parindo mesmo em pleno cortiço, com a ajuda dos vizinhos. Momentos como esse valeram pela reflexão, mas não deixaram de lado a aura de leveza e descontração que é a essência da obra.

O elenco misturou nomes consagrados da arte nacional com outros desconhecidos ou recém-lançados – mas a verdade é que, entre veteranos e novatos, todos se saíram bem em suas interpretações. Vimos, por exemplo, um efusivo Lázaro Ramos na pele do aspirante a cantor Roque, contracenando diretamente com a bela e afinada Aline Nepomuceno, que, assim como outros novatos do elenco, infelizmente desapareceu das telas após essa participação.

A religião foi outro ponto bastante abordado em Ó Paí Ó, de forma até certo ponto interessante, mas ao mesmo tempo controversa.  Foi mostrada a convivência entre pessoas de credos diferentes, bem como o sincretismo religioso entre o catolicismo e as religiões afros – tema já visto na semana passada no festival, em O Pagador de Promessas (1988). Importante citar isso porque demarca a abordagem de um mesmo tema em gêneros e tempos distintos e ressalta o cunho de evolução histórica da dramaturgia global.

A presença forte da igreja evangélica, algo que acontece em boa parte do Brasil e também na Bahia, teve grande destaque nessa questão religiosa, porém pecou pela abordagem caricata e não necessariamente condizente com a realidade dessa corrente, tanto na Bahia como nas demais partes do Brasil. Os “crentes” – como em boa parte dos produtos da grande mídia, diga-se de passagem – aparecem ora como pessoas ingênuas e inconvenientes, ora como na pele de pastores hipócritas e mal-intencionados que exploram seus fiéis em busca de benefício financeiro. Para a Globo, que se diz defensora da pluralidade religiosa e avessa a preconceitos, já passou da hora de adotar uma retratação mais respeitosa ao povo evangélico.

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