Crítica de TV: Novela “CAMALEÕES” (México, 2009)

Camaleones

Apesar da pouca repercussão que teve no México e em outros países, Camaleões conferiu um alento de inovação à repetitiva fórmula das novelas juvenis. Personagens multifacetados, adrenalina policial e texto foram os principais ingredientes que fizeram da trama de Rosy Ocampo (A Feia Mais Bela) um dos produtos mais bem acabados para essa faixa etária nos últimos anos.

A história gira em torno de dois ladrões com perfis bem diferentes, o refinado Sebastião (Alfonso Herrera) e a ex-menina de rua Valentina (Belinda). Eles são recrutados, mediante ameaças, pelo misterioso “Amo” para executar um plano de vingança contra Augusto Ponce de Leon (Guillermo García Cantú), delegado de polícia corrupto e também dono do Colégio São Bartolomeu. Obrigados pelo Amo, Valentina e Sebastião chegam à escola passando-se por dois irmãos contratados como inspetora e de professor de artes no local. Ao mesmo tempo em que vão descobrindo que diversos personagens ao seu redor não são bem o que aparentam, o casal de impostores acaba se apaixonando e pondo em risco a farsa e os planos de seu chefe.

Essa premissa, tão complexa quanto fantasiosa e fora do convencional, foi desenvolvida de forma convincente e instigante pelos roteiristas Diana Segovia, Gustavo Barrios e Palmira Olguín. A personalidade complexa (isto é, camaleônica) dos personagens foi trabalhada nos diálogos de forma cuidadosa e delicada, o que não apenas evitou a criação de tipos contraditórios, como os levou a um patamar de humanização que poucas vezes se viu na teledramaturgia mexicana.

Outro mérito do programa foi evitar o subaproveitamento do elenco adulto, o que é comum acontecer em muitas tramas juvenis. Intérpretes como Edith González (Francisca), Guillermo García Cantú e José Elías Moreno (Armando) tiveram seu merecido espaço e se destacaram tanto ou mais do que os atores adolescentes. Também se sobressaíram Grettel Valdéz, que roubou a cena como a cínica e ardilosa Silvana; Manuel Ibáñez, que deu vida ao personagem mais significativo e multifacetado da história, o jardineiro/policial Leônidas ; além de Luis Manuel Ávila, José Luis Reséndez (Pedro), Karla Álvarez (Ágatha), Ana Bertha Espín (Lupe).

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Belinda e Alfonso Herrera começaram suas participações um tanto “verdes”, mas evoluíram a contento. Depois do adolescente Miguel em Rebelde (2004-2006) – papel que o lançou ao estrelato –, Alfonso foi-se moldando aos poucos a um perfil bem diferente, de um jovem culto, maduro e com sede de justiça. Belinda tardou um pouco mais a demonstrar amadurecimento, além de que seu tipo físico, angelical e magérrimo, muitas vezes se mostrou inadequado à personagem. Entretanto, sequências como as em que Valentina desabafa com Leônidas sobre sua gravidez inesperada, próximas da reta final da história, deixam claro que a popstar entregou em Camaleões a melhor atuação de sua carreira.

O cantor Pee Wee fez uma estreia digna como ator de novelas, na pele do bom-moço Ulisses, protagonista adolescente da história. Mas o grande destaque do elenco jovem foi Sherlyn, realmente afinada como a mimada e conflituosa Solange. (É curioso, porém, que a atriz de quase 30 anos continue se especializando em papéis de adolescente.) Seus colegas Carla Cardona (Mercedes), Alberich Bormann (Frederico), Juan Carlos Flores (Bruno) e Taíde Rodríguez (Cristina) também se destacaram na ala dos alunos do São Bartolomeu.

O enredo: acertos, falhas e controvérsias

Um aspecto controverso de Camaleones foi a sobreposição das subtramas à história do par principal. O romance entre Valentina e Sebastião às vezes era delegado a segundo plano em prol de núcleos secundários mais movimentados, como o drama familiar de Mercedes (Carla Cardona), que se envolvia com drogas após descobrir que seu pai, José Inácio (Eduardo Cáceres), era bígamo e tinha uma segunda família.

É interessante observar que esse descompasso, tão comum na TV brasileira, é praticamente inédito na Televisa, onde muitas produções já pecaram pela carga excessiva na trama principal e a falta de enredos secundários de peso. Obviamente não se trata de um acerto, mas talvez seja a chance de a rede mexicana despertar para a força das subtramas, um elemento salutar e indispensável à receita da telenovela moderna.

Camaleones teve no apelo ao misticismo seu grande “mico”. As aparições do policial Roberto (Salvador Ibarra) como fantasma foram responsáveis pelos momentos mais constrangedores da trama, dando margem a sequências ainda mais patéticas como quando Ulisses, ao chamar pelo irmão, subitamente vê uma letra “R” surgir no espelho. Um pano-de-fundo muito bem aproveitado em películas hollywoodianas e em novelas brasileiras, mas que aparentemente a Televisa ainda não está apta para adotar.

Apesar do ritmo intenso de seus primeiros meses, Camaleões perdeu um pouco a mão a partir de quando Valentina e Sebastião conseguiram tirar Armando e Pedro da cadeia, entrando gradativamente em uma longa “barriga” (aquela fase das novelas em que a história fica estagnada). Houve certa recuperação mais adiante, mas é visível o quanto esse período prejudicou o andamento total da trama, em especial nas últimas semanas.

Quando o enredo parecia ainda ter muito o que se desenvolver, os desfechos começaram a pipocar de maneira brusca e nem sempre convincente. Aqui no Brasil, as coisas foram ainda piores, já que o SBT editou os 30 últimos capítulos da novela em apenas 2 – cumprindo uma determinação do Ministério da Justiça que exigiu que a novela fosse tirada do ar, por ter conteúdo inadequado à faixa em que era exibida.

Como toda novela, Camaleões teve seus tropeços, mas marcou muito mais pelas qualidades e os diferenciais. Executou muito bem sua proposta vanguardista sem perder de vista a agilidade e a coerência, conseguindo ser juvenil sem infantilizar – equilíbrio raro nos folhetins voltados a essa faixa etária. Sem exagero, provavelmente a telenovela jovem mais inteligente já produzida em toda a América Latina.