“SARAMANDAIA” – Um olhar sobre a estreia

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Dando sequência à onda de ressuscitar antigos sucessos, a Globo estreou ontem (segunda-feira, 24) a nova versão de Saramandaia. Desenvolvida por Ricardo Linhares (Paraíso Tropical, Insensato Coração) com base na obra clássica de Dias Gomes (Roque Santeiro), o remake é feliz ao inserir novos elementos sem deturpar a essência da obra original, e escorrega apenas por “forçar a barra” da modernidade em um universo que, de tão onírico e consagrado pelo imaginário coletivo, já é quase intocável.

A história gira em torno da disputa política entre duas famílias, os Rosado e os Villar, na fictícia cidade nordestina de Bole-Bole. Essa disputa ganha novos contornos a partir de quando João Gibão (Sérgio Guizé), o misterioso profeta da cidade, tem uma premonição de que a mesma precisa mudar seu nome para Saramandaia. Inicia-se então um movimento de modernização que esbarra na classe conservadora do local, a qual deseja manter o nome original. Em meio a isso, Bole-Bole estremece com o retorno de Vitória Villar (Lília Cabral), mulher madura e decidida que, há muitos anos, atreveu-se a viver uma história de amor com Zico Rosado (José Mayer), arqui-inimigo de sua família e hoje coronel manda-chuva da cidade. Muita coisa ficou mal-resolvida entre Zico e Vitória quando esta o deixou, e os dois agora têm a chance de aparar as arestas do passado – ou torná-las ainda maiores.

Zico Rosado, com seu hábito de expelir formigas pelo nariz em sinal de nervosismo, é apenas um dos muitos personagens excêntricos de Bole-Bole/Saramandaia, a exemplo de Encolheu (Matheus Nachtergaele), que faz previsões do tempo de acordo com suas dores ósseas; Cazuza (Marcos Palmeira), cujo coração literalmente sai pela boca quando ele se exalta; e o próprio João Gibão, que se faz passar por corcunda para esconder um belo par de asas que leva em suas costas.

O capítulo de estreia pode ser dividido em dois atos: o primeiro, concentrado em apresentar os personagens e na questão “Bole-Bole vs. Saramandaia”, com contornos mais cômicos; e o segundo, mais dramático e denso, desenhando-se a partir da chegada de Vitória e enunciando os conflitos históricos entre as duas famílias rivais. O primeiro ato não trouxe nada demais e foi até um pouco arrastado, com o humor leve e pueril típico dessas histórias de “casos e causos”. Já o segundo trouxe um pouco de mais de movimento e de carga emotiva à trama, com direito a um certo mistério em torno dos fatos que uniram e separaram Vitória e Zico. Ficou claro, aliás, que o casal central tem tudo para vir a ser o grande atrativo desta nova Saramandaia.

Veteranos e novatos dão ao elenco um tom de equilíbrio e afinação. Sérgio Guizé – em seu primeiro papel na TV, após uma vasta carreira no cinema nacional – já se vê irrepreensível na pele do sofrido João Gibão. Fernando Belo, o outro lançamento da trama, também chega cheio de potencial, apesar de demonstrar alguma insegurança em suas primeiras cenas. Já a pouco experiente, mas competente Chandelly Braz (Marcina) encarou de frente o desafio de revisitar o papel de Sônia Braga no folhetim original, perfeitamente segura em cena. Matheus Nachtergaele, Ana Beatriz Nogueira (Maria Aparadeira) e Débora Bloch (Risoleta) também se destacaram.

Os efeitos especiais são outro acerto. Estão sendo usados no tom e nas ocasiões certas, como os que se veem na pele de Marcina, que literalmente pega fogo ao trocar beijos com o namorado, João. A caracterização de Vera Holtz como Dona Redonda, em compensação, não convence muito. Remete mais ao universo de Walt Disney do que ao de Dias Gomes.

As tentativas de transpor o universo de Bole-Bole da década de 70 para os dias de hoje, por sua vez, não parecem estar indo por um bom caminho. Em se tratando de uma obra onírica, o apelo deve ser menor para a retratação da realidade do que para o imaginário popular.  E nesse universo de excentricidades e simbologias, que remetem tanto à dramaturgia e à literatura clássicas, ser “invadido” por notebooks, celulares ultramodernos e redes sociais pode soar quase como uma heresia. Se havia mesmo tamanha preocupação cronológica ao recriar Saramandaia, talvez fosse o caso de fazer dela uma trama de época ou invés de preferir ambientá-la nos dias atuais.

E você, leitor do Overtube, o que achou do primeiro capítulo de Saramandaia? Comente conosco, deixe a sua opinião!

(Felipe Brandão)