Balanço final: “ALÉM DO HORIZONTE” conseguiu crescer no Ibope, mas decaiu na qualidade

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Inovar na televisão brasileira nunca foi fácil, e Além do Horizonte assumiu esse risco com todos os desafios e consequências que poderia acarretar. Finalizada na última sexta-feira (2), a história dos estreantes Carlos Gregório e Marcos Bernstein começou como uma espécie de versão brasileira de Lost (seriado americano), que, rejeitada pelo gosto popular, passou por alterações para se ajustar ao padrão a que o público estava acostumado. Ganhou-se em Ibope, perdeu-se em qualidade.

A história começou bastante atrativa, cercada de mistério, suspense e ganchos interessantes, com direito ainda à boas sequências de aventura – um diferencial diante da fórmula repetitiva adotada pelas novelas das 7 ao longo dos últimos anos, sempre com muito humor em detrimento até mesmo do melodrama. Um enredo nebuloso, com potencial de gerar mil teorias a respeito de seus pontos misteriosos nas redes sociais e fóruns de discussão, tal como foi com seu precursor americano.

Apesar da qualidade e da proposta inovadora, Além do Horizonte sofreu de cara com a rejeição da audiência mais conservadora, que sentiu falta de uma história mais adaptada aos padrões do horário. A trama de Bernstein e Gregório também pecava desde o início por algumas falhas estruturais importantes, no caso, a ausência de elementos tradicionais para contrabalançar com os ineditismos. Praticamente todos os acontecimentos giravam em torno da Comunidade comandada pelo diabólico LC (Antônio Calloni), não havia conflitos familiares, pares de peso, etc.

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As mudanças providenciadas pela Globo, longe de melhorarem o quadro, só deitaram por terra os seus principais atrativos e chegaram a transformar Além do Horizonte em uma história quase medíocre. Ao invés de investir no aumento da carga melodramática – o que talvez tivesse sido interessante – autores e diretores preferiram focar no humor e no romance como meio de recuperar a audiência perdida. Em termos de Ibope foi positivo, já que os números subiram.

No entanto, os núcleos cômicos encabeçados por personagens como Inês (Maria Luísa Mendonça), Marcelo (o estreante Igor Angelkorte, divertidíssimo) e as irmãs Selma (Luciana Paes) e Rita (Mariana Xavier) até tinham sua graça, mas soavam ralos, insuficientes para formar um pólo de atração para a trama no sentido humorístico. Já os remanejamentos dos pares românticos, juntando Lili (Juliana Paiva) com Marlon (Rodrigo Simas) e William (Thiago Rodrigues) com a professora Celina (Mariana Rios), também deixou a desejar – nenhum deles convencia como um romance principal, mais pareciam aquelas tramas secundárias usadas para “encher linguiça” nas novelas tradicionais.

A transformação do enredo, de uma trama de mistério para uma história policial, teve seus bons momentos, mas não convenceu de todo. Garantiu boas sequências de adrenalina, inclusive na reta final, mas colocou a narrativa em um tom mais maniqueísta e até didático, dando ares de história em quadrinhos à trama e comprometendo inclusive sua verossimilhança. Uma pena.

lili e william

O elenco de Além do Horizonte foi um dos mais irregulares das novelas recentes da Globo. Ainda assim, é possível citar dois inegáveis destaques principais: Juliana Paiva e Antônio Calloni. A primeira, recém-vinda de Malhação, mostrou que deixara para trás os tempos de imaturidade dramática e destacou-se do início ao fim na pele da mocinha Lili, provando que tem potencial e carisma para trabalhos cada vez maiores na Globo. Já Calloni mais do que brilhou na pele do perverso LC, um personagem cheio de matizes e reviravoltas, que ele interpretou com uma competência magistral.

Thiago Rodrigues, outro ex-Malhação, não foi a melhor opção para o papel principal. O rapaz é afinado, tem boa técnica tanto para cenas de comédia como dramáticas, mas não possui carisma e presença em cena para atrair a torcida do público como galã. Por sua vez, o estreante Vinícius Tardio dispensa comentários. Sempre opaco e inexpressivo, sua escalação revelou-se totalmente equivocada, a ponto de seu personagem ser rebaixado do elenco protagonista para uma coadjuvância quase invisível.

Além do Horizonte foi o típico caso da “novela estragada pelo Ibope”: disposta a romper tabus do gênero, acaba rejeitada pelo público e perde-se cada vez mais na tentativa de atrai-lo. Independente da audiência, termina entre seus tantos altos e baixos com um saldo positivo, de uma trama que ousou e trouxe um alento de “novidade” a um horário de produções cada vez mais homogêneas.

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