Balanço final: "MEU PEDACINHO DE CHÃO" foi uma novela essencialmente visual - Portal Overtube

Balanço final: “MEU PEDACINHO DE CHÃO” foi uma novela essencialmente visual

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Portal Overtube – Encerrada ontem (sexta-feira, 1 de agosto) na Globo, Meu Pedacinho de Chão certamente tem seu espaço dentro da história da teledramaturgia brasileira. A trama não chegou em momento algum a ser um sucesso de audiência (muito pelo contrário), mas foi unanimidade entre a crítica graças ao seu caráter ousado, inovador e profundamente visual.

A direção de Luiz Fernando Carvalho foi o ponto crucial que deu o tom de toda a obra. Sem medo de ousar e de arriscar, ele construiu um folhetim calcado sobretudo na estética, em que figurinos, cenários e até variações climáticas eram aspectos narrativos da história e ajudavam a expressar os sentimentos dos personagens. Cabe ressaltar ainda os enquadramentos de câmera diferenciados – a visão geral da casa da família Napoleão, por exemplo, por vezes permitiu enxergá-la como uma espécie de casa de bonecas, algo perfeitamente condizente com a proposta lúdica do folhetim –, o tom de realismo fantástico e onirismo que permeava cada momento do dia-a-dia de Vila de Santa Fé, local fictício onde a história se passou, e a excelente direção de atores, que aproveitou o melhor do potencial do elenco.

É difícil selecionar destaques, mas vale citar alguns nomes. Paula Barbosa cativou como a temperamental Gina e fez um par ferdinando e ginainteressantíssimo com Johnny Massaro, que mostrou maturidade artística na pele de Ferdinando. Osmar Prado e Juliana Paes foram perfeitos na eterna dicotomia do coronel Epaminondas, sempre imperativo e mal-humorado, e sua esposa Catarina, que esbanjava energia e simpatia a cada cena. Irandhir Santos também construiu bem seu Zelão, um dos tipos mais marcantes da novela.

Merecem ainda menção honrosa Inês Peixoto e Rodrigo Lombardi, como Dona Tê e Pedro Falcão, e Antonio Fagundes, que compôs sob medida o italiano Giácomo, dono da venda da cidade. E o que dizer da dupla infantil Geytsa Garcia e Tomás Sampaio, que viveram Pituca e Serelepe? Tomás encantou do início ao fim na pele do simpático orfãozinho, e já mostra que tem futuro na dramaturgia. Geytsa, por sua vez, começou um pouco “travada”, mas aos poucos conseguiu o tom certo para tornar Pituca uma personagem tão querida quanto Serelepe.

Embora não tenha havido maus atores em Meu Pedacinho de Chão, alguns nomes podiam ter rendido mais do que se viu nas telas. É o caso de Bruno Fagundes, que deixou a desejar em algumas cenas mais dramáticas do médico de Renato, ou da protagonista Bruna Linzmeyer (Juliana), sobretudo se considerarmos que ela vinha de uma performance elogiadíssima  na pele da autista Linda de Amor à Vida.

Meu Pedacinho de Chão pecou ainda – e principalmente – pela falta de uma história mais interessante e ágil. Havia muita riqueza estética e artística, mas a narrativa não prendia, não possuía agilidade – algo primordial em se tratando de uma telenovela moderna – e carecia sobretudo de uma boa dose de folhetim. Nunca existiu de fato, por exemplo, um casal principal forte, vilões que aprontassem maldades para separá-los, enfim, o lado “rocambolesco” que toda novela precisa ter. Talvez, muito mais que numa possível rejeição às inovações estéticas, resida aí o motivo da baixa audiência da trama.

Entre alguns erros e muitos acertos, Meu Pedacinho de Chão valeu como experiência positiva de inovação na dramaturgia da Globo. A trama introduziu uma nova linguagem narrativa e foi precursora de um estilo que pode – por que não? – ser desenvolvido e aperfeiçoado a longo dos próximos anos. É torcer para que seja assim.

Meu_Pedacinho_de_Chão_(2014)

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