CAIXA PRETA - "Amorteamo": vida longa à qualidade das novas séries

CAIXA PRETA – “Amorteamo”: vida longa à qualidade das novas séries

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Por onde começar uma análise da nova série, Amorteamo? Este foi meu único pensamento em ordem depois do fim do primeiro capítulo. Para mim foi um turbilhão de sensações: memórias visuais e estéticas revolvidas, lembranças dos atores tão cômodos em outros papéis e, confesso, um certo orgulho de ver que as produções da Globo – especialmente as séries – estão cada vez mais em sintonia com a nova era das narrativas audiovisuais on demand e da TV fechada. Ainda muita coisa vai melhorar, mas a emissora está no caminho certo.

Arrisco em dizer que em certos momentos me pareceu uma mistura de Hoje é Dia de Maria e a estética gótica dos filmes de Tim Burton. Além do visual e de uma deliberada melancolia, outras referências à marcas desse diretor aparecem (assista ao filme roteirizado por Burton, O estranho mundo de Jack) como, mais um exemplo, a abertura, em estilo stop motion, que lembrou o filme A noiva cadáver. No entanto, tais intertextos não representam, de maneira alguma, uma falta de criatividade. Vejo como uma reverência a grandes diretores, roteiristas e cenógrafos que, copiados ou ressignificados, mantêm nossa cultura como é hoje: líquida, espetacular, iconofágica, fragmentada e, principalmente, conectada. A começar pelo título, Amorteamo traz em si toda essa mistura fractal de narrativas, linguagens, imagens, artes.

Apesar de tantas referências, os criadores Claudio Paiva, Newton Moreno e Guel Arraes mantiveram a edição dinâmica, doses equilibradas de teatro e cinema, e traços da teledramaturgia bem à brasileira – exagerada, folhetinesca, mas hiper-realista, especialmente no final quando os amantes descobrem que são irmãos e vão se afastando enquanto os créditos sobem entre eles. O realismo fantástico proposto captou a relação ancestral entre a vida e a morte na raiz da palavra “amor”. Lembro que mors, em latim, significa “morte” e o prefixo “a” representa a negação ou o contrário de alguma coisa, assim como nas palavras anormal, apolítico, amoral. A palavra amor, portanto, significa a negação da morte. Ou aquilo que nunca morre, que vive para sempre. Exatamente a proposta do roteiro: contar uma história onde o amor é tão poderoso quanto a morte. E dura eternamente.

Escalados para esse primeiro capítulo, o primeiro triângulo amoroso formado por Arlinda (Letícia Sabatella), Aragão (o marido, Jackson Antunes) e Chico (o amante interpretado por Daniel Oliveira) foi uma escolha acertada. Trio à altura da trama. O outro triângulo será formado por Gabriel (Johnny Massaro), Lena (Arianne Botelho) e, a tão esperada, Malvina (Marina Ruy Barbosa) que abandonada no altar por Gabriel se mata e volta para levar o amor da sua vida (ou da sua morte?) para a eternidade.

Falando em noiva-cadáver, o figurino dos personagens assinados por Cao Albuquerque e Helena Araújo revelam muita pesquisa que vai além do retrato de uma época. O figurino da ruiva personagem Dora (Maria Luisa Mendonça) se destacou no capítulo. Em cenas futuras, o figurino da noiva abandonada referenciam um filme ganhador de Oscar de melhor figurino, o Drácula de Bram Stocker (1992), direção do Coppola . Sem falar na cenografia (assinada por Cris de Lamare) que mistura muito bem arte digital e cenário físico na pós-produção. Coisa de cinema americano.

A única falha do primeiro capítulo foram os erros de continuísmo – personagens de cabelos desregrados como Gabriel, em cada plano aparece com o cabelo desarrumado ou penteado de um jeito. Isso incomoda. E os efeitos visuais pecaram na cena que o protagonista sobe na ponte e dialoga com Malvina antes de cair nas águas dos mangues – qualquer pessoa percebe que é um cenário pelo cromakey mal feito. Faltou atenção na pós-produção. Sabe como é, no mundo de sonho e fantasia da TV não tem espaço para a realidade.

É, prezado leitor, a série é produto tipo exportação. Estreou com boa audiência (14 pontos contra 7 do SBT e 7 da Record). Que mais obras como Amorteamo mantenham vivos o nosso desejo e a nossa necessidade humana de ouvir-ver histórias que transcendam o espaço televisual.

hertz wendelO publicitário, jornalista e escritor Hertz Wendel é o autor da coluna CAIXA PRETA, que será publicada quinzenalmente no Portal Overtube. Mestre em Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte (Unicamp) e doutor em Estudos da Linguagem (UEL), ministra aulas na graduação e no mestrado de Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e já publicou livros como “Outros Nós: Roteiros Sob a Pele” e “Mito e Filme Publicitário: Estruturas de Significação”. Adora desvendar os mitos e simbologias escondidos na “caixa preta” do universo televisual.

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