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EM CARTAZ: “Amour” vai além da concepção moderna dos sentimentos

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A concepção moderna de amor pouco evoluiu desde os tempos em que Julieta Capuletto e Romeo Montecchio se mataram por amor nos jardins de Verona. Se hoje não se vê com tanta freqüência o suicídio de jovens amantes, por outro lado se vê nas redes sociais (o novo muro de lamentações amorosas) inumeráveis odes a esse conceito que conhecemos por amor, por vezes tão superestimado e ao mesmo tempo tão subestimado.

Amour, o filme do diretor Michael Haneke (do sensacional A Fita Branca), é um alívio muito bem vindo a esse cenário estagnado de percepções e representações do amor. Traz a história de Anne (Emanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), ou pelo menos, um trecho muito específico dessa história. O momento em que Anne sofre um AVC e vê metade do seu corpo paralisada por uma cirurgia que deu errado. Georges irá cuidar da esposa desse momento até o fim.

A estrutura do filme é linear e segue sem cortes que levem a outras dimensões temporais. Não há aquela profusão de lembranças dos personagens que marca os filmes norte-americanos. A conexão que temos com os acontecimentos passados e relações entre os personagens se dá apenas através dos diálogos e de um álbum de fotografias que Anne folheia. A lentidão exasperante em que se desenrolam as cenas, longe de ser um aspecto negativo, torna-se uma forma de o espectador entrar em contato com a decrepitude da velhice – onde a mais insignificante das ações toma para si muito tempo e envolve os personagens em situações de fadiga extrema.

É impossível não se emocionar com a atuação afiada de Emmanuelle Riva. A atriz se vê sob medida no papel de uma ex-pianista renomada que, impossibilitada e recolhida a uma cama, tem por consolo os cuidados e o extremo amor de seu marido. Apesar de ter perdido o Oscar 2013 de Melhor Atriz para a jovem Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida), a atuação de Emanuelle entroa para a história do cinema, como bem o reconheceram alguns grandes críticos da sétima arte. Jean-Louis Trintignant conseguiu passar toda a exausta serenidade que Georges sentiu necessária para cuidar de sua esposa, estando ele próprio adiantado em número de anos.

No geral o filme pode ser resumido em sua primeira cena. Quando as luzes se apagam, o espectador se vê diante de um espelho: uma outra platéia formada por pessoas que se movem em busca de seus lugares. Automaticamente nossos olhos treinados começam a buscar nesta os rostos dos dois personagens e finalmente os encontramos, ali, no estremo esquerdo da tela. Uma voz grave pede aos espectadores (de ambas as plateias, entendo) que desliguem seus celulares e câmeras que o espetáculo está para começar. E então a música começa a encher o recinto. E Georges olha para Anne que escuta, embevecida.

É desse momento que falo, é nesse momento que notamos o amor de que fala o título do filme. Nesse olhar o personagem deixa claro o quanto conhece dessa mulher que está ao seu lado, o quanto ele compreende da emoção que ela está sentindo ao ouvir essas evoluções do piano.

Assim, Michael Haneke nos mostra, sem a pretensão de educar ou moralizar, em pistas sutis, o que constitui o sentimento “amor”. Um filme que mereceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2013, e que certamente deixará marcas permanentes naqueles que entraram em contato com a relação ambígua de secura e doçura vivenciada entre os protagonistas – e resumida na frase de Anne ao descrever Georges: “Você é um monstro, às vezes. Mas é gentil” .

(Cinthia Torres)

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CINTHIA TORRES é uma crítica de arte por natureza. Estudante de História em uma das principais universidades do Paraná, tem na literatura e no cinema duas de suas grandes paixões. Seu olhar apurado e sensível faz de Cinthia mais do que simples leitora-espectadora, mas verdadeira tradutora das emoções e verdades complexas que por vezes se perdem entre as linhas de um romance ou entre as imagens profusas da telona.

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