Balanço final: “DONA XEPA” não se destacou, mas cumpriu

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A Rede Record encerrou na última terça-feira (24) mais um trabalho de seu núcleo de dramaturgia. Dona Xepa foi uma produção modesta em todos os sentidos, desde a curta duração (apenas 90 capítulos) ao desenvolvimento da narrativa, que dosou bem o folhetim mas não apresentou grandes novidades nem reviravoltas. A trama nada mais foi, em suma, do que um “mais do mesmo” de qualidade no canal de Edir Macedo.

O lançamento de Gustavo Reiz como autor de novelas talvez tenha sido o principal mérito de Dona Xepa. Vindo da minissérie bíblica Sansão e Dalila, Gustavo criou personagens interessantes e condizentes com a realidade brasileira – com o apelo inevitável à nova classe C, principal alvo das novelas de hoje na Globo e na Record – e soube conduzi-los tanto no humor como no drama. Claro que o texto teve também seus defeitos, e a falta de agilidade foi o maior deles, considerando que o público da faixa estava acostumado ao ritmo frenético da trama antecessora, Balacobaco. Além do mais, por ser Dona Xepa uma novela bem mais curta que o habitual, era de se esperar um enredo mais veloz e que não perdesse tempo com “barrigas”.

A inexperiência de Gustavo pôde ser percebida ainda em outros aspectos da história, como a relação de Xepa (Ângela Leal) com seus filhos, Rosália (Thaís Fersoza) e Edson (Arthur Aguiar), que se envergonhavam dela. O clichê da “mãe dedicada x filhos ingratos” é um elemento de grande potencial dramatúrgico – Fina Estampa (2011), Morde e Assopra (2011) e Flor do Caribe (2013), todas da Globo, estão aí para comprovar. Reiz, porém, acabou por vezes reduzindo a questão a uma abordagem modorrenta e quase infantil, economizando atrativos no que poderia ter sido o grande trunfo do programa. Fica a sugestão ao escritor para trabalhos futuros.

A direção geral de Ivan Zettel também teve suas controvérsias. Apesar de ter evoluído em alguns aspectos importantes – a falta de entrosamento entre atores de um mesmo núcleo, um dos pontos mais criticados de seu trabalho na versão brasileira de Rebelde, já foi totalmente superado –, Zettel ainda fica devendo quando se trata de dirigir cenas de ação e aproveitar o potencial de seus atores em sequências mais dramáticas.

Nada disso, porém, prejudicou significativamente o desempenho do elenco, bem equilibrado por sinal. A consagrada Ângela Leal brilhou na pele de Dona Xepa, em uma interpretação carismática que conseguiu até humanizar a figura tão caricata da feirante. Outra veterana de destaque foi Luíza Tomé, que roubou a cena com os exageros e os bordões da tresloucada Meg Pantaleão. Arthur Aguiar teve seus altos e baixos, mas evoluiu bem no decorrer de Dona Xepa e defendeu dignamente seu Édison, assim como Gabriel Gracindo, um nome pouco valorizado pela dramaturgia da Record, que realmente surpreendeu na interpretação segura do trapaceiro François.

Agora, ninguém se sobressaiu mais em Dona Xepa do que Thaís Fersoza. Sua vilã, a ambiciosa e calculista Rosália, foi uma antagonista sensacional, extremamente maldosa sem cair no exagero ou na caricatura, muito bem construída pelo roteiro de Gustavo Reiz e muito bem interpretada por Fersoza. Sem dúvida a personagem que mais marcou neste folhetim, e se não foi melhor pela ausência de um desfecho à altura – no último capítulo, Rosália se arrepende subitamente de suas maldades por amor à filha recém-nascida.

Dona Xepa passou longe de ser uma novela marcante, teve tantos acertos como erros, mas cumpriu bem a função de manter “aceso” o núcleo de dramaturgia da Record até a estreia de Pecado Mortal. Uma novela absolutamente esquecível, mas que foi feliz em sua única pretensão: entreter e divertir.

(Felipe Brandão)

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