Balanço final: “FLOR DO CARIBE” fez do tradicionalismo seu maior trunfo

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Walther Negrão é um dos raros autores veteranos de novelas cujo estilo tradicional continua em plena forma. Flor do Caribe, que chegou ao fim na última sexta-feira (13), deixou isso muito claro. Um trabalho sem grandes pretensões, porém emotivo, coerente e redondo como há um bom tempo não se via entre os folhetins das seis – e talvez até nas demais faixas da Globo.

O roteiro bem trabalhado foi o grande diferencial da novela. Além de acertar na dose dos ingredientes básicos do formato – o casal apaixonado, o vilão obsessivo e disposto a tudo para separá-los, núcleos paralelos regados a mistério, romance e humor, tudo estava ali –, Negrão chamou a atenção pelo cuidado e inteligência na construção de seus personagens. Da mocinha romântica ao mais perverso antagonista, o que vimos em Flor do Caribe foi uma galeria de tipos humanos e delicadamente matizados.

Pode parecer um aspecto mínimo da teledramaturgia brasileira, mas não diante de exemplos recentes como a exagerada e “mexicanoide” Amor à Vida e a absurda Salve Jorge (2012). Vale ressaltar ainda o contraste com sua antecessora direta, Lado a Lado, bem produzida e elogiada pela crítica, mas que afastou o público pelo tom excessivamente documental – e cuja baixa audiência Flor do Caribe conseguiu elevar, embora minimamente.

Destaque ainda para o pano-de-fundo do nazismo, que se mostrou atual e pertinente por meio da história de Samuel (o ótimo Juca de Oliveira), um judeu sobrevivente do Holocausto que descobria no sogro de sua filha, Dionísio (Sérgio Mambertti), o criminoso de guerra responsável pelo extermínio de toda sua família; para o romance de Natália (Daniela Escobar), mulher madura e culta, com Juliano (Bruno Gissoni), um pescador simples e bem mais jovem; e a relação do ingrato e ambicioso Hélio (Raphael Viana) com seus pais, os humildes Bibiana (Cyria Coentro) e Donato (Luiz Carlos Vasconcelos).

O único quesito em que a receita tradicional de Wálther Negrão fica devendo é a agilidade. As tramas de Flor do Caribe eram atrativas, mas se desenvolveram em um ritmo mais lento, aquém do exigido pelo público de hoje – basta ver como Amor à Vida, embora não tenha o mesmo acabamento, privilegia a ação em seu mote. Provavelmente por isso os índices do Ibope não tenham chegado a animar muito.

Em Flor do Caribe, Jayme Monjardim novamente deu provas de que é um dos melhores diretores de novelas globais. Cuidou cada detalhe da produção – a fotografia do Norte do Brasil foi um show à parte – e soube aproveitar muito bem o potencial de seu elenco. Geralmente criticada, Grazi Massafera teve uma a interpretação sob medida da heroína Esther, convencendo em todos os tons da personagem. Uma atriz que, acima de qualquer rótulo ou preconceito, está amadurecendo a olhos vistos. O mesmo já não se pode dizer de Henri Castelli. Acostumado a interpretações medíocres, daquelas que “enganam bem” mas não se destacam, ele não fugiu a essa linha na pele do sofrido Cassiano. O público certamente merecia um herói melhor.

Com isso, todas as atenções no elenco masculino se voltaram para o lançamento de Ígor Rickli. O ator foi alvo de duras críticas em suas primeiras cenas como o psicopata Alberto, mas evoluiu muito no decorrer da história, a ponto de fazer do filho de Guiomar (Cláudia Netto, igualmente maravilhosa) o personagem mais marcante da galeria do folhetim. Rickli definitivamente tem futuro.

Do elenco coadjuvante, foram tantas as boas atuações que seria injusto tentar enumerar. Vale apenas comentar o bom desempenho dos estreantes, como Joana Chiapetta (Carol), José Henrique Ligabue (Lino) e Lívian Aragão (Marizé), e lamentar a performance insossa da premiada atriz argentina Moro Alighieri (Cristal). Aparentemente, as dificuldades com o idioma impediram-na de se soltar em cena, vendo-se por vezes artificial e sem expressão.

Flor do Caribe veio a calhar na teledramaturgia global, reafirmando o padrão da qualidade com que a emissora se consagrou aqui e no exterior, e que, aparentemente, já não é mais tão levado em conta nas produções recentes da casa. A prova cabal de que, em um momento em que a inovação e a busca por autores novos e mais jovens dão a letra, os tradicionais do gênero ainda têm – e merecem – seu espaço.

(Felipe Brandão)

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