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“SALVE JORGE” – Balanço final da trama da Globo

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Salve Jorge foi uma novela que marcou – não só como a grande decepção da TV brasileira em 2013, como também uma das novelas mais problemáticas já produzidas pela Globo. A baixíssima audiência foi apenas o reflexo da falta de agilidade e consistência do roteiro de Glória Perez, cujo estilo tão demarcado e repetitivo parece já não causar o mesmo frisson dos tempos de O Clone (2001) e Caminho das Índias (2009).

É bobagem apontar o fato de ter substituído a aclamadíssima Avenida Brasil como a principal causa do fracasso da última trama das 21h. É fato que se tratava de um folhetim mais tradicional, mas nem mesmo dentro desse padrão pode-se dizer que Salve Jorge satisfez. Glória Perez passou toda a novela parecendo estar mais preocupada em reafirmar e insistir em “seu estilo” do que em atender às necessidades do público – o que ficou claro na intransigência com que ela respondia no Twitter às críticas de seus seguidores ao trabalho.

Situações-clímax demoravam dois, três capítulos para acontecerem em sua totalidade, intercaladas com cenas de humor pastelão e enchimento de linguiça que só faziam cansar e desanimar o espectador. Também faltou um cuidado do roteiro e sobretudo da direção, de Marcos Schechtmann (Caminho das Índias), em conferir aos momentos de maior impacto a carga emotiva que o público queria ver. A morte de Jéssica (Carolina Dieckmann), por exemplo, acabou sendo mais um balde de água fria no telespectador do que um incentivo a continuar seguindo a trama (e tudo isso se refletiu de forma clara nos índices de audiência desse período…).

As incongruências do roteiro foram um show – com e sem ironia – à parte. Sequências como a morte de Raquel (Ana Beatriz Nogueira), que entrou de um elevador em busca de um sinal melhor para seu celular (ahn?) e foi assassinada ali mesmo por Lívia, ou o reencontro entre Theo e Morena dentro de uma igreja aberta em plena madrugada, não passaram despercebidas pelo público atento e fizeram da novela vítima de diversos “trolls” nas redes sociais – a única forma de repercussão consistente de Salve Jorge perante o público.

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O excesso de personagens típico das novelas de Glória Perez atingiu seu ápice problemático nesta trama. O núcleo do tráfico humano era o único que se salvava em meio a um mar de histórias desinteressantes, com personagens sem nenhum carisma. Todo o núcleo da família Flores Galvão, por exemplo, encabeçado por dona Leonor (Nicette Bruno) e enteados como Carlos (Dalton Vigh) e Aída (Natália do Vale), poderia ter sido eliminado desde o começo sem causar nenhum prejuízo à trama.

O drama familiar do casal Berna (Zezé Polessa) e Mustafá (Antonio Calloni), cuja filha adotiva, Aisha (Danni Moreno), estava em busca de sua família biológica e descobria ter sido vítima do tráfico de bebês, é outro caso dos que prometiam muito e pouco cumpriram. A subtrama vinha cheia de potencial, tanto em termos de folhetim como de merchandising social. Porém foi tão negligenciada por Glória Perez no decorrer da história que acabou se resolvendo de forma apressada e forçada apenas na reta final da novela, rendendo bem menos do que deveria.

Altos e baixos do elenco

Apesar do estranhamento inicial, a escalação de Nanda Costa revelou-se um grande acerto. Pouco conhecida na TV, mas consagrada no cinema, Nanda encarou de frente o desafio de protagonizar a novela das 9 e fez de Morena uma heroína forte, humana e carismática. Rodrigo Lombardi tampouco esteve mal, embora seu personagem, Theo, não tenha caído no gosto do público.

Totia Meirelles foi o grande destaque entre os vilões, construindo uma Wanda tão odiosa quanto crível. Já Cláudia Raia deixou a desejar. A atriz exagerou na frieza e na carga dramática de sua Lívia, tornando-a uma personagem caricata e robótica. Acostumada a papéis meigos, Paloma Bernardi mostrou-se segura ao interpretar Rosângela, vilã cheia de controvérsias interessantes. A “musa” Vera Fischer, por sua vez, não fedeu nem cheirou, como aliás tem feito em todos os seus últimos trabalhos.

Outros destaques desta ala da história ficaram por conta do paranaense Adriano Garib (o violento Russo) e da estreante Laryssa Dias, que viveu a sofrida e sensual Waleska com um carisma e um charme incomuns até em veteranos.

Agora, ninguém se sobressaiu mais em Salve Jorge do que Giovanna Antonelli. Sua personagem, a decidida delegada Helô, foi a mais carismática e interessante da novela, realmente bem-construída por Glória Perez e pela própria atriz – que teve na “justiceira” um de seus melhores trabalhos na televisão. Sem querer desmerecer Nanda Costa, mas talvez tenha sido Helô/Giovanna a verdadeira heroína do folhetim. Destaque ainda para a relação de Helô com seu ex-marido, o advogado picareta Stênio (Alexandre Nero).

Sem mais meias palavras, assim foi Salve Jorge: uma novela repleta de equívocos, sem nenhum equilíbrio e dentro da qual pouca coisa se salvou. Um verdadeiro desastre, do qual nem a Globo nem o público poderão sentir saudade.

(Felipe Brandão)

giovanna antonelli

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