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Crítica: “A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS”, a singeleza de uma história narrada pela Morte

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E finalmente chega aos cinemas o filme que esteve provocando nos fãs do best-seller de Markus Zusak curiosidade e apreensão em doses semelhantes. Houve aqueles que se desesperaram por medo de a sétima arte roubar a essência do livro, e também quem esperasse com alegria e curiosidade. De todo modo, A Menina que Roubava Livros (The Book Thief, Estados Unidos), de Brian Percival (Norte e Sul e Downton Abbey), chega para derramar lágrimas de avisados e desavisados.

Como no livro, é a Morte quem conta a história. Com as mesmas palavras instigantes, ela nos toma pela mão e nos induz á imersão na vida de Liesel Meminger, uma garota de dez anos a viver na Alemanha nazista e que chamou sua atenção quando foi buscar o irmão desta, morto em uma viagem de trem que os levaria a um novo lar. A Morte se interessa por esta garotinha que não sabe ler, mas que é perseguida pelas palavras quer queira quer não. Intrigada com o costume da menina de roubar livros (e são livros estranhos de se ler), a ceifadora de almas acaba por seguir a menina pelos caminhos que sua vida a leva.

A Morte é o primeiro ponto que surpreende. É muito provável que grande parte dos leitores do livro de Zusak a tenham imaginado como uma figura feminina… ou ao menos com uma voz feminina. Entretanto, no filme temos uma Morte com voz grossa e incisiva e provida apenas com parte do encanto daquela de papel.

Somos então apresentados a uma Liesel muito mais sensível, arrumada e limpa que aquela a qual estamos acostumados. Sophie Nélisse, a atriz que dá vida a personagem, traz uma nova abordagem de Liesel, uma mais doce que permite uma aproximação muito maior de seu amigo – e protótipo de primeiro amor -, Rudy Steiner, o garoto dos cabelos cor de limão. O personagem Rudy, por sua vez, parece ser complementado por quem o interpreta nas telonas (Nico Liersch), e em cada Saumensh que pronuncia, um sorriso teimoso surge no rosto daquele que assiste.

Outra figura de destaque é o papai Hans Hubermann, interpretado por Geoffrey Rush. O ator consegue passar com clareza toda aquela aura amorosa do personagem original, e sua relação com a mamãe Rosa (Emily Watson) é tão adorável e cômica como se espera.

Algumas mudanças interessantes podem ser notadas no filme. Uma delas é a substituição de um dos livros roubados por Liesel, O Dar de Ombros pelo romance O Homem Invisível, de H. G. Wells. Esta troca serve aos propósitos de apresentação e metáfora para o personagem Max Vandenburg, o judeu que Hans Hubermann acolhe e esconde em seu porão. O filme também oculta o “livro” escrito por Max nas páginas pintadas do Mein Kampf (Minha Luta, livro autobiográfico de Adolf Hitler), e o substitui como um livro com páginas em branco para que a garota possa escrever por ela mesma.

Possivelmente devido a uma tentativa de ampliação do público, o diretor escolheu empalidecer as cenas chocantes e violentas, e tanto a “Noite dos Cristais” quanto a marcha dos judeus pela rua Himmel foram expostas de forma suave. A tensão, entretanto, se faz presente através da bela trilha sonora composta por John Williams (Harry Potter, Jurassic Park, Indiana Jones), chegando a se tornar quase palpável na cena em que acontece o bombardeio e os habitantes da rua se reúnem no porão de uma casa qualquer. O som das explosões, que se aproximam cada vez mais e estremecem as fundações das casas, faz eco na platéia e o público se vê desejando que tudo aquilo passe rapidamente.

Se há um ponto que possa ser tomado como negativo é aquele onde, também pensando em seu público, o diretor troca a ideia de “roubo” pela de “empréstimo”. A personagem Liesel Meminger precisava não apenas do livro e suas palavras como também do roubo, da ideia de retirar aquele objeto que fizera parte de momentos específicos de sua vida. Todos os livros roubados têm um significado particular extraído da ocasião de seu roubo, como aquele retirado dos restos da fogueira dos livros proibidos pelo regime nazista, ou mesmo aquele livro do roubo primordial, aquele perdido pelo coveiro no dia da morte do irmão da roubadora de livros… Mas, é apenas um detalhe que não suprimirá as lágrimas do espectador.

A Menina Que Roubava Livros traz toda a singeleza do livro de Markus Zusak, toda a emoção naturalmente suscitada por este momento da história que é a II Guerra Mundial e, mesmo que ao final fique aquela sensação de que poderia ter mais alguma coisa – que não sabemos ao certo definir com especificidade -, o resultado é satisfatório e certamente positivo. É praticamente impossível àqueles que leram o livro não sentir a sensação de reconhecimento dos personagens, das situações e mesmo da fatídica rua Himmel.

E, ao final, fica aquele carinho redobrado pelas palavras e pelo seu poder de cura.

(Cinthia Torres)

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